Imagine Carla, três da manhã, com o primeiro filho no colo. O bebê chorou por uns minutos antes que ela conseguisse chegar ao quarto. Ela tinha adormecido pesado, depois de uma semana sem dormir direito. Agora ele está calmo, mas ela segue acordada, com a cabeça cheia de uma pergunta: “Será que eu demorei demais? Será que isso deixa marca?”
Essa pergunta acompanha muita gente que cuida de uma criança pequena. E é exatamente a ela que o pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott deu uma resposta que atravessou décadas: para criar alguém, basta ser “suficientemente bom”.
Winnicott trabalhou como pediatra por cerca de quarenta anos, a partir de 1923, no Hospital Infantil de Paddington Green, em Londres. Antes de formular qualquer teoria, ele viu muitas mães e muitos bebês de perto. Daí vem o tom de sua obra: pouco solene, muito atento ao que acontece na vida comum de uma casa.
Um dos títulos dele, de 1949, já diz bastante: A mãe comum dedicada e seu bebê. A ideia que aparece ali e que reaparece na expressão “mãe suficientemente boa” é que a saúde emocional de uma pessoa se apoia no cuidado cotidiano e comum de quem a recebe no mundo. Não exige cuidado perfeito, nem método especial, nem especialista dentro de casa.
Em inglês, a expressão é good-enough mother. O “suficientemente” importa tanto quanto o “boa”. Winnicott descreve alguém que, na maior parte do tempo, está sintonizada com as necessidades do bebê e responde a elas de forma consistente. Na maior parte do tempo, e não o tempo todo.
Há um detalhe que costuma se perder quando a frase vira slogan. Winnicott fala de uma adaptação quase completa às necessidades do bebê no começo da vida. Nas primeiras semanas, quem cuida vive voltada para atender. Para um ser tão pequeno e tão dependente, receber respostas rápidas e atentas oferece um chão onde pisar.
Com o passar do tempo, a adaptação vai diminuindo, de modo gradual. Quem cuida passa a se adaptar menos, e menos depressa, conforme o bebê cresce e consegue esperar um pouco. Essa mudança tem relação com um processo que o próprio Winnicott chama de desilusão gradual: aos poucos a criança descobre que existe uma pessoa separada dela, com suas próprias limitações, e que o mundo nem sempre chega na hora em que ela chama.
Repare no que isso significa para a Carla. A demora de alguns minutos naquela madrugada fica dentro do que a própria teoria prevê. Pequenas falhas, vividas dentro de uma relação que no geral é confiável, ajudam a criança a tolerar frustração e a formar uma noção de si separada de quem cuida.
Seria fácil ler tudo isso como uma licença para qualquer coisa. Penso que o texto pede outra leitura. Winnicott pede presença, constância e disposição de tentar entender o que o bebê precisa. O que ele dispensa é a perfeição. Entre abandono e perfeição existe um território enorme, e é nele que a vida real acontece.
Winnicott escreveu falando de mães. Hoje, muitas vezes, quem cuida é um pai, uma avó, um casal de pais, uma tia, uma pessoa adotiva. Minha leitura, como analista, é que a ideia central se aplica a qualquer pessoa que se dedique a receber uma criança no mundo: o que conta é a qualidade da presença ao longo do tempo.
Há ainda um efeito curioso da busca pelo cuidado perfeito. Quem tenta nunca falhar costuma viver exausta, vigilante, com medo de cada gesto. Essa vigilância também chega à criança. Uma pessoa descansada o bastante para errar e voltar tem mais a oferecer do que alguém que se cobra sem pausa.
A expressão se refere à infância, mas costuma voltar no consultório de adultos. Pense em Rodrigo, quarenta e poucos anos, que se cobra por qualquer deslize no trabalho como se um erro pudesse destruir tudo o que construiu. Em algum momento, ao conversar sobre isso, ele percebe que carrega a ideia de que só merece ficar se for impecável. A ideia de que alguém pode ser suficientemente bom, e continuar sendo recebido, soa estranha para ele.
Essa estranheza diz algo. Muita gente cresce acreditando que o afeto depende de desempenho. Quando conseguimos colocar em palavras essa crença, ela perde parte da força. Muitas vezes o trabalho de uma análise consiste em oferecer a alguém, com o tempo, uma experiência de relação em que o erro, o atraso e a falha cabem, e o vínculo segue de pé.
Esse é um modo de usar as ideias de Winnicott: observar como o “suficiente” funciona também para quem somos hoje. Pode ser útil perguntar a si mesmo: com quem eu me permito errar? Diante de quem eu preciso me mostrar perfeito? De onde vem essa exigência?
Quem já esperou uma resposta que demorou, e depois a recebeu, conhece esse movimento por dentro. A espera foi desconfortável, e o reencontro trouxe alívio. Boa parte da confiança que temos nas pessoas nasce de repetir muitas vezes essa sequência: falta, espera e retorno.
A mãe suficientemente boa, na formulação de Winnicott, é alguém comum, presente na maior parte do tempo, que se adapta muito no início e vai aos poucos deixando espaço para a criança descobrir o mundo e a si mesma. Para quem cuida de um filho, a frase pode servir de descanso. Para quem já cresceu, pode servir de pergunta sobre o quanto exige de si.
Se esse assunto toca alguma coisa em você, será um prazer conversar. Meu e-mail é psicanalise@marcoassis.net.br.
Marco Assis, psicanalista