Imagine Helena. Ela perdeu o pai há oito meses. Numa reunião de família, entre xícaras de café e conversas cruzadas, uma prima comenta carinhosamente que já está quase fazendo um ano e que é hora de tentar se reerguer. Helena sorri com delicadeza, concorda em silêncio e volta para casa com o coração apertado, tomada pela sensação dolorosa de estar atrasada em uma jornada cujo mapa ninguém lhe entregou.
A dúvida que Helena guarda no peito é a mesma de tantos de nós quando enfrentamos uma dor profunda: quanto tempo o luto deveria durar? Para responder a isso com mais afeto, vale a pena compreender de onde veio essa ideia de que o luto segue um relógio exato.
É muito comum ouvirmos falar nos cinco estágios do luto: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Essa teoria foi descrita pela médica Elisabeth Kübler-Ross em 1969, ao acompanhar pacientes terminais diante da perspectiva da própria morte. Com o passar do tempo, o modelo acabou sendo aplicado ao luto por quem parte, criando sem querer a expectativa de que todos nós deveríamos atravessar essas fases em uma ordem certinha. Na prática, a vida e os sentimentos são únicos e pessoais, indo além de uma lista de etapas.
Uma perspectiva muito acolhedora é o modelo do processo dual, proposto pelos pesquisadores Margaret Stroebe e Henk Schut em 1999. Eles descrevem o luto como um movimento gracioso de vaivém. Em certos momentos, nossa mente e nosso coração precisam se voltar para a perda: vivenciar a saudade, chorar, relembrar. Em outros momentos, nos voltamos suavemente para a reconstrução: aprender novas rotinas, assumir tarefas ou simplesmente permitir um sorriso. Ambos os lados exigem energia, e essa oscilação é natural. Com o tempo, as ondas de dor tendem a ficar menos tempestuosas.
Compreender esse movimento nos traz alívio: dar uma risada genuína em um encontro com amigos não é trair a memória de quem se foi, assim como desabar em lágrimas após semanas de calmaria não significa um retrocesso. Não há uma linha reta a percorrer, e ninguém está atrasado na sua própria cura.
Pense em Helena novamente. Em uma semana, ela consegue organizar os documentos, atender chamadas e cumprir as tarefas do trabalho. Na semana seguinte, passa a tarde inteira acolhendo uma foto antiga do pai, em silêncio. Quem olha de fora pode imaginar uma oscilação na sua melhora, mas, na verdade, ela está apenas atendendo ao ritmo humano do seu luto: equilibrando o cuidar da vida e o honrar a sua dor.
Em seu texto Luto e melancolia (1917), Freud nos lembra de algo fundamental: por mais doloroso e profundo que seja o luto, ele é uma resposta esperada e saudável diante de uma perda significativa. O fundador da psicanálise destacava que o luto não deve ser visto como uma patologia, mas como uma caminhada necessária que requer tempo e compaixão.
Freud explicava que o luto é um trabalho paciente e artesanal. O nosso psiquismo precisa desatar, nó por nó, os laços de afeto investidos em cada memória, em cada expectativa e em cada canto compartilhado com a pessoa amada. É uma reorganização interna feita delicadamente peça por peça, e não algo que se resolve em um instante.
Há outra imagem bonita trazida por ele: no luto, a dor reflete a dimensão do afeto, e o mundo ao redor parece perder momentaneamente o brilho sem aquela presença. Aos poucos, conforme esse trabalho interno se realiza no seu próprio tempo, a vida retoma o seu significado e novos caminhos se abrem.
Embora não exista prazo exato, é importante sabermos quando buscar um suporte profissional. A literatura médica, como o manual DSM-5-TR, reconhece o chamado transtorno do luto prolongado quando a dor intensa e paralisante se mantém de forma contínua por mais de 12 meses em adultos (ou 6 meses em crianças e adolescentes). Nesses casos, o sofrimento se manifesta em um entorpecimento emocional, dificuldade para aceitar a dor, solidão profunda e um prejuízo marcante para conseguir cuidar da própria vida.
Vale enfatizar que esses critérios diagnósticos consideram o grau de sofrimento paralisante e o impacto no dia a dia, e jamais a presença do sentimento de saudade em si. Sentir falta de quem amamos por toda a vida é um sinal de amor, não de doença.
Os prazos da medicina funcionam como um mapa de cuidado profissional, não como um julgamento sobre o que sentir. Se você sente a presença carinhosa da saudade anos depois, mas consegue viver e caminhar, está tudo bem. Por outro lado, se a dor está pesada demais para carregar a qualquer momento dessa jornada, estender a mão para pedir ajuda é um ato de profundo amor-próprio.
Este texto tem caráter informativo e acolhedor, não substituindo o diagnóstico ou acompanhamento terapêutico. Se a dor estiver muito intensa, procure o apoio carinhoso de um profissional da saúde mental.
A pergunta “você ainda não superou?” geralmente carrega a pressa do mundo lá fora. Em vez disso, uma pergunta mais gentil que podemos nos fazer é: “o que o meu coração precisa acolher hoje?”. E se estivermos ao lado de alguém que chora uma perda, o gesto mais bonito e transformador é oferecer escuta sem julgamentos, presenças sem cobranças e um abraço sem prazos.
Se quiser conversar, escreva para psicanalise@marcoassis.net.br.
Marco Assis, psicanalista