“Mude sua vida em 21 dias. Resultado garantido ou seu dinheiro de volta.” Você provavelmente já viu um anúncio assim passar pelo celular, entre uma foto de viagem e um vídeo de receita. Imagine que alguém chamado Henrique, num momento de cansaço com o trabalho e com a própria rotina, para diante dele e pensa: “Talvez seja isso que me falta.”
A vontade de Henrique é legítima. Quem procura ajuda quer, de fato, que as coisas melhorem. O problema aparece quando a oferta se aproveita desse desejo e vende uma certeza que ninguém consegue sustentar. Reconhecer esse tipo de promessa protege o bolso e, principalmente, a esperança da pessoa.
Processos que envolvem pessoas, relações e escolhas de vida dependem de muita coisa que nenhum profissional controla: o momento em que a pessoa está, o que acontece à sua volta, o quanto ela consegue se envolver. Por isso, quem promete um resultado fechado, com prazo e garantia, está prometendo algo que a vida real raramente permite.
Alguns sinais merecem atenção. Um deles é o prazo mágico, como “transforme-se em um mês”. Outro é a linguagem de segredo, como “o método que ninguém quer que você conheça”. Outro ainda é a história de sucesso usada como prova única, sem nenhuma informação sobre quantas pessoas tentaram e o que aconteceu com elas. Uma boa história comove, mas uma história isolada não demonstra nada.
Também desconfio de quem trata a dúvida do cliente como falta de vontade. Quando um profissional responde a uma pergunta legítima com “você precisa acreditar mais”, a conversa deixa de ser sobre o trabalho e passa a ser sobre obediência.
Outro sinal aparece no preço e no modo de pagar. Pacotes longos cobrados de uma vez, descontos que expiram em poucas horas e pressão para decidir na hora fazem a pessoa escolher sob ansiedade. Uma decisão importante sobre o próprio cuidado merece uma noite de sono. Se a oferta não resiste a uma noite, talvez não resistisse a uma semana de uso.
Vale também notar quem é o centro da cena. Em propagandas exageradas, quase sempre o foco está no carisma de quem vende, em carros, viagens e depoimentos. Num trabalho sério, o foco fica em quem busca ajuda, no que essa pessoa quer e no que consegue fazer com o tempo.
Falar com seriedade sobre coaching e sobre terapias exige separar o que a pesquisa mostra do que a propaganda afirma. Um exemplo: em 2014, os pesquisadores Theeboom, Beersma e van Vianen publicaram, no Journal of Positive Psychology, uma meta-análise sobre coaching em contextos organizacionais. Eles encontraram efeitos positivos em cinco áreas: desempenho e habilidades, bem-estar, enfrentamento de situações difíceis, atitudes no trabalho e autorregulação voltada a metas. Os tamanhos de efeito variaram de moderados a grandes, conforme a área.
Esse resultado merece respeito, e também tem limites claros. Ele fala de coaching em ambiente de trabalho, em estudos acadêmicos. Não autoriza ninguém a prometer a você que a sua vida inteira vai mudar, nem que qualquer pessoa que se apresente como coach entrega o mesmo que esses estudos mediram. Uma pesquisa ajuda a dizer que uma prática pode ser útil em certas condições. Ela não transforma qualquer oferta do mercado em solução.
O mesmo cuidado vale para as terapias e para a psicanálise. Há debate sério sobre o que a pesquisa mostra, sobre como medir mudanças que acontecem devagar e sobre o que cada abordagem consegue e não consegue fazer. Quem trabalha com honestidade aceita essa discussão e não a esconde atrás de frases de efeito.
Uma reportagem sobre o assunto, publicada em 2014, ouviu especialistas que apontavam que a atividade de coach não tinha regulamentação, por reunir áreas diferentes como administração, psicologia e filosofia. Segundo essa reportagem, na ausência de regras qualquer pessoa pode se apresentar com esse nome. Quem sustenta essa posição conclui que o título, sozinho, diz pouco, e que cabe a quem contrata fazer perguntas.
Algumas delas, inspiradas nas orientações dessa mesma matéria e no bom senso, são simples. Onde e quando a pessoa estudou, e se faz atualização? Com quem já trabalhou, e que referências pode oferecer? O processo tem começo, meio e fim combinados desde o início? Como ele será avaliado ao longo do caminho? O que acontece se eu quiser parar?
Repare no último ponto. Um trabalho sério permite que você interrompa e aceita conversar sobre isso. Se a saída é tratada como traição, vale parar e pensar.
E para quem procura terapia ou análise, o mesmo vale: perguntar como o profissional trabalha, qual é a frequência, quanto custa e como se combina o encerramento é um direito de quem contrata. Qualquer profissional que acolhe essas perguntas com tranquilidade costuma estar mais seguro do que faz.
Voltando a Henrique. Ele não precisa desistir de buscar ajuda por causa de um anúncio exagerado. Pode, inclusive, procurar uma conversa de apresentação, levar suas perguntas e observar como elas são recebidas. Um bom sinal é o profissional que fala com cuidado do que não sabe e do que depende do próprio Henrique, sem vender um final feliz.
Uma ideia para levar: quanto mais fechada a promessa, mais vale desconfiar. Um trabalho com pessoas costuma ter ritmo próprio, altos e baixos e resultados que só se enxergam com o tempo.
Este texto tem caráter informativo e não substitui atendimento. Se você está em sofrimento intenso, vale buscar ajuda profissional presencial. E se quiser conversar sobre como escolher um caminho de cuidado, escreva para psicanalise@marcoassis.net.br.
Marco Assis, psicanalista