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O que significa pensar a pessoa como ser em relação

Imagine um menino de quatro anos, o Teo, que não dorme sem um pedaço de cobertor azul, já meio puído. Os pais tentaram lavá-lo e ele chorou até o cobertor voltar. Numa viagem, esqueceram o cobertor em casa, e a noite no hotel virou uma negociação difícil entre choro, colo e cansaço.

Quem convive com crianças conhece cenas assim. Winnicott olhou para elas com atenção e enxergou ali algo que diz muito sobre como uma pessoa se forma em relação a outras pessoas.

Um objeto entre a criança e o mundo

Winnicott chamou esse tipo de cobertor de objeto transicional. Trata-se, muitas vezes, da primeira posse que a criança sente como “não eu” e que de fato lhe pertence. Pode ser um cobertor ou um ursinho, e também uma melodia ou uma palavra. O termo “transição” indica uma fase intermediária entre a realidade psíquica, de dentro, e a realidade externa. O objeto costuma ganhar importância na hora de dormir, serve de defesa diante da ansiedade e, numa fase posterior, a criança deixa de precisar dele.

Vale prestar atenção no lugar do cobertor. Ele ocupa o espaço entre a criança e o mundo, e é por esse espaço que ela começa a passar do que sente para o que existe lá fora. Antes de haver um “eu” bem delimitado, há uma zona de encontro em que as coisas pertencem um pouco a quem sente e um pouco ao mundo.

Penso que muitos adultos mantêm versões discretas desse território. Uma música que acalma antes de uma reunião, uma frase que alguém disse e que a gente repete por dentro, uma rotina de café que segura o começo do dia. Nada disso é infantil. São apoios que ficam entre nós e a realidade, e que nos ajudam a atravessá-la.

Voltando a Teo: o que parece birra por causa de um cobertor pode ser lido como uma criança defendendo uma ponte. Pais que enxergam isso podem discutir menos com ela e ajudar mais a noite a acontecer, oferecendo colo, uma história, um lugar para o cobertor ficar dentro da mala. A atenção deixa de ir para o comportamento e passa a ir para o que ele está sustentando.

Ferenczi e o que acontece entre duas pessoas

Sándor Ferenczi, médico húngaro e um dos colaboradores mais próximos de Freud, levou uma preocupação parecida para dentro do consultório. Em 4 de setembro de 1932, no 12º Congresso Psicanalítico Internacional, em Wiesbaden, apresentou o trabalho “Confusão de línguas entre os adultos e a criança”. O texto só seria publicado em inglês, no International Journal of Psycho-Analysis, em 1949.

Ferenczi defendia que a resposta empática do analista é a base do encontro clínico. Divergia da abstinência recomendada pela técnica clássica e valorizava a mutualidade na relação com o paciente, chegando a considerar que o analista, em certas situações, pode revelar algo de si e que isso tem efeito reparador. Entre os motivos do seu afastamento de Freud costuma-se apontar o crédito que ele dava aos relatos dos pacientes sobre abusos sofridos na infância.

Mesmo quem discorda de pontos da técnica de Ferenczi pode reconhecer o que ele colocou em cena: quem escuta participa da conversa. A pessoa que chega com um sofrimento encontra alguém, e esse encontro faz parte do que acontece ali. A psicanálise nunca foi apenas uma teoria sobre o que se passa dentro de uma cabeça, e a clínica de Ferenczi mostra isso com clareza.

Na prática, isso muda o tom de uma conversa. Quem escuta com essa ideia em mente percebe que o próprio jeito de ouvir, o tempo que concede, a pergunta que faz e a que deixa de fazer, entra na cena. Um silêncio respeitado ou um comentário apressado produzem efeitos diferentes em quem fala, e esses efeitos pertencem ao encontro das duas pessoas.

O que muda quando ouvimos assim

Pense em Rafael, 35 anos, que diz logo no começo da conversa que é “uma pessoa difícil”. Ele fala como quem informa uma característica de nascença, tão fixa quanto a altura. Se a escuta fica só na frase, resta registrar a característica e passar adiante.

Se a escuta inclui o espaço entre as pessoas, a frase abre perguntas. Difícil para quem? Desde quando alguém lhe disse isso, e com que tom de voz? Em que cenas ele se sente difícil, e em quais deixa de se sentir assim? Aos poucos, “sou difícil” pode virar uma história com personagens: um pai que dizia isso quando ele era menino, um chefe que o repete hoje, uma namorada que prefere não discutir. A frase continua verdadeira para ele, mas deixa de ser um veredicto e passa a ser um ponto de partida.

Isso vale para quem escuta e para quem fala. Quando nos perguntamos “com quem isso aconteceu”, “o que eu esperava dessa pessoa” e “o que eu fiz com o que senti”, deslocamos o foco de uma essência para uma relação. A pergunta deixa de ser “como eu sou” e ganha uma companheira: “como eu fico quando estou com certas pessoas”.

Uma ideia para levar

Vale prestar atenção nos seus próprios cobertores e nas presenças que o ajudam a atravessar o dia: a música, a frase, o amigo a quem você manda mensagem quando a coisa aperta. Eles contam bastante sobre como você se sustenta em relação ao mundo. Quando uma descrição sua parecer definitiva, como “sou assim mesmo”, experimente perguntar diante de quem ela ficou verdadeira.

Se quiser conversar sobre alguma coisa deste texto, escreva para psicanalise@marcoassis.net.br.

Marco Assis, psicanalista